por Felipe Sentelhas
Arquivo de maio 2010
cinza
07/05/10
quero o gosto amargo
e a boca seca
dos beijos que trocaram
Humphrey Boggart e Ingrid Bergman
sentir mais do que vergonha
por não entender
o espelho
por entender
o meu gozo
Eu e alguém
trocando gestos
os lábios úmidos
e o gosto salgado
ao futuro
07/05/10
Ao ser pedido para olhar para o futuro e preparar, em linhas, palavras, sons e imagens uma máquina que pudesse me levar até ele eu não pude ter outra reação senão olhar para o outro lado, o passado.
Muitos diriam que eu posso estar errado nesse movimento de cabeça e foco do olhar, mas tenho do meu lado inúmeros gurus da tecnologia, dos costumes e da moda que não me deixam enganar ao dizerem que o passado volta. Tantas vezes que nos vestimos como nas décadas de sessenta, setenta, oitenta e noventa, tantos filmes que contam histórias de personagens promíscuos, tantas músicas que se repetem nas influências de décadas.
Essa máquina pode muito bem me levar a repetir infinitamente algo do passado, sem nunca ter andado para trás.
Mas fica claro esse futuro preso nos costumes de antes, é fruto de homens e mulheres que não querem olhar para a única e verdadeira coisa que é o futuro, escuridão, amorfa e caótica.
É preferível dar forma e iluminá-lo com as coisas claras e belas do passado, numa esperança terrível de mansidão e tranquilidade, até que uma pedra nesse caminho nos faça tropeçar e quebrar tudo isso que carregávamos. Assim, seremos obrigados, como tantas vezes na história a acostumar os olhos e enlouquecer um pouco mais com o inesperado que nos aguarda.
Tudo o que mais quero é que a máquina me traga a essa pedra, mas ela é importante demais para ser prevista.
Genealogia I
07/05/10
colocada num algodão,
branco e molhado
-tal qual projeto escolar-
a semente se recusava a beber
cresceu árida seca torcida
como um estômago vazio
e os tendões de um faminto