por Felipe Sentelhas
nerdim
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Artigos por nerdim
Obrigado por dançar comigo
10/06/10
Tem certas coisas que só a FLAP consegue fazer, no ano de 2009 com uma delegação mista de argentinos, chilenos, mexicanos e bolivianos, tive contato com a poesia latino-americana contemporânea, palavras que me deram uma rasteira e me largaram estatelado no chão olhando para as estrelas. Até hoje admito que posso não ter me recuperado e por isso resolvi de vez escrever.
O que mais me impressionou foi a atualidade dos textos e a naturalidade deles para se comunicar com minha geração. Um deles que mais me prendeu foi o de Pablo Paredes, intitulado Gracias por bailar conmigo. Enquanto ouvia o próprio poeta recitar os versos em espanhol, eu encontrei uma ode à minha geração.
Prometi ao Pablo que traduziria o poema, mas o processo foi mais demorado do que imaginei. A tradução emperrou em algumas poucas expressões.
Coisas como o langüetazo e conjugações, que viraram lambida. Outra que só resolvi hoje, e com assessoria, foi o “chuparme la herida” que ganhou uma referência visual meio monstruosa, mas acho que a melhor.
Antes de colocar o texto, faço menção especial à Ana Rüsche que revisou a primeira versão e me assessorou no processo final.
Obrigado por dançar comigo
1
Obrigado por dançar comigo, por me chupar a ferida.
Esses braços de mongol já não pedem para dizer síndrome de down.
Obrigado por dançar comigo que estava todo molhado,
não gostava dessa canção, mas mesmo assim foi bonito,
debaixo da pele foi quase o mesmo de antes,
melhor do que antes
porque agora estou mais corado,
certas pessoas gostam de acariciar as cicatrizes
e eu não me deixo mais
me faço quietinho e feliz,
tão quietinho que a mão deixa de me ver
e fico sozinho,
mais sozinho que um dedo em uma mão
de que se cortaram quatro.
2
Obrigado por dançar comigo
e me dizer
princesa é meia-noite e continua tão bela,
porque eu sei que sou feio,
que meu tamanho lhes dá asco
que tenho escrito na pele manchada
a viagem da bisavó de Neuquén até o Chile
que tenho escrito como infecção nos poros
a prisão do pai,
por isso agradeço por dançar comigo
que escrevo bonito,
mas tenho os dias mais contados do que escritos,
que preciso pornografiar meu coração,
que estou rachado e chorando,
que respingo
que ando falando misérias
que estou mais cansado que o diabo
e fico pesado,
raramente carinhoso,
carinhoso significa excitado,
obrigado por dançar comigo,
por me tocar nas costas manchadas de adolescência
por me falar na orelha
por me lamber
porque nessa lambida tenho descansado todos esses dias,
com essa lambida tenho por tempo suficiente,
porque amanhã ao invés de ir à procura de amor nas esquinas,
ao invés de envernizar meu coração órfão,
vou falar de você,
a única coisa que vou mudar será a canção,
vou dizer que a música era Close to Me dos Cure
e que a lambida não foi na orelha, mas no sexo.
3
Obrigado por dançar comigo, por me chupar a ferida,
por evitar qualquer posteridade,
por me levar
por esses ritmos que não sinto nem entendo,
eu nasci em 1982,
e nesses anos parece que ninguém dançava,
parece que estive oitos anos só
sacudindo as pernas
em um berço que foi de outro,
obrigado por dançar comigo
que tenho o corpo horrível,
como um mapa físico do Chile.
Agora a versão original:
Gracias por bailar conmigo
1
Gracias por bailar conmigo, por chuparme la herida.
Estos brazos mongolos ya no piden que digan síndrome de down.
Gracias por bailar conmigo que estaba todo mojado,
esa canción no me gustaba, pero igual fue bonito,
debajo de la costra quedó casi igual como antes,
mejor que antes
porque ahora estoy más rosado,
a cierta gente le gusta acariciar las cicatrices
y yo me dejo no más
me quedo quietecito y feliz,
tan quietecito que la mano deja de verme
y quedo solo,
más solo que un dedo en la mano
de quien le han cercenado cuatro.
2
Gracias por bailar conmigo
y decirme
princesa son las doce y sigue tan linda,
porque yo sé que soy feo,
que mi tamaño les da asco
que tengo escrito en la piel manchada
el viaje de la bisabuela desde Neuquén hasta Chile
que tengo escrito como infección en los poros
la cárcel del padre,
por eso te doy gracias por bailar conmigo
que escribo bonito,
pero tengo los días más contados que escritos,
que necesito pornografiar mi corazón,
que estoy rajado y chorreando,
que salpico
que ando hablando miserias
que estoy más curado que la chucha
y me pongo pesado,
rara vez cariñoso,
cariñoso significa calentón,
gracias por bailar conmigo,
por tocarme la espalda manchada de adolescencia
por hablarme en la oreja
por langüetiarme,
porque en ese langüetazo he descansado todos estos días,
con ese langüetazo tengo para harto tiempo,
porque resulta que mañana en vez de andar buscando amor de rincón,
en vez de andar barnizando mi corazón guacho,
voy a hablar de ti,
lo único que voy a cambiar va a ser la canción,
voy a decir que el tema era Close to me de los Cure
y que el langüetazo no fue en la oreja sino en el sexo.
3
Gracias por bailar conmigo, por chuparme la herida,
por evitar cualquier posteridad,
por llevarme
por estos ritmos que no siento ni entiendo,
yo nací en 1982,
en esos años parece que nadie bailaba,
parece que estuve ocho años solo
moviendo la patita
en una cuna que fue de otro,
gracias por bailar conmigo
que tengo el cuerpo horrible,
como un mapa físico de Chile.
de El Final de la Fiesta (Calabaza del Diablo, 2006)
1
Obrigado por dançar comigo, por me chupar a ferida.
Esses braços mongóis já não pedem para dizer síndrome de down.
Obrigado por dançar comigo que estava todo molhado,
não gostava dessa canção, mas mesmo assim foi bonito,
debaixo da pele foi quase o mesmo de antes,
melhor do que antes
porque agora estou mais corado,
certas pessoas gostam de acariciar as cicatrizes
e eu não me deixo mais
me faço quietinho e feliz,
tão quietinho que a mão deixa de me ver
e fico sozinho,
mais sozinho que um dedo em uma mão
de que se cortaram quatro.
2
Obrigado por dançar comigo
e me dizer
princesa é meia-noite e continua tão bela,
porque eu sei que sou feio,
que meu tamanho lhes dá asco
que tenho escrito na pele manchada
a viagem da bisavó de Neuquén até o Chile
que tenho escrito como infecção nos poros
a prisão do pai,
por isso agradeço por dançar comigo
que escrevo bonito,
mas tenho os dias mais contados do que escritos,
que preciso pornografiar meu coração,
que estou rachado e chorando,
que respingo
que ando falando misérias
que estou mais cansado que o diabo
e fico pesado,
raramente carinhoso,
carinhoso significa excitado,
obrigado por dançar comigo,
por me tocar nas costas manchadas de adolescência
por me falar na orelha
por me lamber
porque nessa lambida tenho descansado todos esses dias,
com essa lambida tenho por tempo suficiente,
porque amanhã ao invés de ir à procura de amor nas esquinas,
ao invés de envernizar meu coração órfão,
vou falar de você,
a única coisa que vou mudar será a canção,
vou dizer que a música era Close to Me dos Cure
e que a lambida não foi na orelha, mas no sexo.
3
Obrigado por dançar comigo, por me chupar a ferida,
por evitar qualquer posteridade,
por me levar
por esses ritmos que não sinto nem entendo,
eu nasci em 1982,
e nesses anos parece que ninguém dançava,
parece que estive oitos anos só
sacudindo as pernas
em um berço que foi de outro,
obrigado por dançar comigo
que tenho o corpo horrível,
como um mapa físico do Chile.
Eu tenho você (e mais nada)
08/06/10
O ânimo para escrever esse poema veio de uma confissão de @puralorota ao dizer que queria um dia cantar Nina Simone para alguém.
Prometi que daquilo saia um poema. Saiu, mas ainda é uma primeira tentativa, vai ser muito mexido para ficar bom.
Não vou ficar explicando porque poema que se explica só fica pior.
Eu tenho você (e mais nada)
Não tenho mais o CD tocando em repeat,
e os números passam
tocando uma melodia
em falso
em falsete
Não tenho mais pianos, baterias,
guitarras ou baixos,
dando o ritmo
do soul
do nó
Não tenho mais as aulas de canto
e os aquecimentos,
lás, mis, rés
e dó
e desafino
Não tenho mais um grande público
que grita em comoção,
entre cada música
um show
um abafo
Só tenho agora
é o desejo de que depois dessa música
tudo fique bem
cinza
07/05/10
quero o gosto amargo
e a boca seca
dos beijos que trocaram
Humphrey Boggart e Ingrid Bergman
sentir mais do que vergonha
por não entender
o espelho
por entender
o meu gozo
Eu e alguém
trocando gestos
os lábios úmidos
e o gosto salgado
ao futuro
07/05/10
Ao ser pedido para olhar para o futuro e preparar, em linhas, palavras, sons e imagens uma máquina que pudesse me levar até ele eu não pude ter outra reação senão olhar para o outro lado, o passado.
Muitos diriam que eu posso estar errado nesse movimento de cabeça e foco do olhar, mas tenho do meu lado inúmeros gurus da tecnologia, dos costumes e da moda que não me deixam enganar ao dizerem que o passado volta. Tantas vezes que nos vestimos como nas décadas de sessenta, setenta, oitenta e noventa, tantos filmes que contam histórias de personagens promíscuos, tantas músicas que se repetem nas influências de décadas.
Essa máquina pode muito bem me levar a repetir infinitamente algo do passado, sem nunca ter andado para trás.
Mas fica claro esse futuro preso nos costumes de antes, é fruto de homens e mulheres que não querem olhar para a única e verdadeira coisa que é o futuro, escuridão, amorfa e caótica.
É preferível dar forma e iluminá-lo com as coisas claras e belas do passado, numa esperança terrível de mansidão e tranquilidade, até que uma pedra nesse caminho nos faça tropeçar e quebrar tudo isso que carregávamos. Assim, seremos obrigados, como tantas vezes na história a acostumar os olhos e enlouquecer um pouco mais com o inesperado que nos aguarda.
Tudo o que mais quero é que a máquina me traga a essa pedra, mas ela é importante demais para ser prevista.
Genealogia I
07/05/10
colocada num algodão,
branco e molhado
-tal qual projeto escolar-
a semente se recusava a beber
cresceu árida seca torcida
como um estômago vazio
e os tendões de um faminto